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Zarlenga vê a indústria automotiva no vermelho

13 / 06 /2018

Os acontecimentos recentes no País como a paralisação dos caminhoneiros e um movimento até agora incerto do comportamento do câmbio estão deixando os executivos das montadoras de cabelo em pé. O cenário atual torna difícil tomada de decisão de curto e longo prazos. As margens estão no vermelho e os reportes às matrizes dão conta de prejuízos à vista. Assim, a líder General Motors saiu na frente e avisou: vai aumentar os preços de seus veículos.

O dólar é o vilão do momento, mas não só ele. Essa é a avaliação do presidente da GM Mercosul, Carlos Zarlenga, que espera vendas menores em junho: “vamos repetir as 200 mil unidades de maio”, segundo ele por conta do grande impacto na cadeia causada pela paralisação dos caminhoneiros. “Na verdade, considerando maio e junho, a indústria deixará de negociar 60 mil veículos”.

Com relação ao câmbio a apreciação do dólar que passou de R$ 3,15 para R$ 3,90 – taxa referencial apresentada por Zarlenga no dia da entrevista – encareceu o produto em pelo menos 30%. “Quando você considera todos os itens de um veículo descobre que 50% deles têm seus preços vinculados ao dólar. Mesmo peças nacionais usam componentes importados. É um impacto brutal nos custos que precisam ser repassados”.

A razão dos aumentos de preços dos veículos tem a ver também com os empréstimos adquiridos junto às matrizes. A luz amarela está acesa porque essa é uma bola de neve que a cada dia de incerteza se torna maior. “Simples. Toda a receita das montadoras é em real. E a dívida é em dólar. Então, nesse momento a dívida está 25% maior. Essa conta não vale apenas para a dívida que as empresas já têm. O impacto também é projetado para as dívidas futuras, que são os planos de investimentos”.

Sobre adiamento de investimentos, ainda é muito cedo para saber se haverá revisão dos planos das montadoras, e da GM especificamente, no Brasil. Zarlenga tem bom entendimento de como agir: “É errado tomar decisões estratégicas desse porte neste momento. Temos que esperar pelo menos três meses para ver qual é o modelo de País que surgirá após as eleições. Mas estamos com uma grande expectativa sobre o que pode acontecer”.

Ainda assim os fundamentos macroeconômicos podem vir a se deteriorarem daqui em diante, prejudicando o desempenho da indústria e jogando um balde de água fria no crescimento e na lucratividade projetados no início de 2018. A GM registrou prejuízos em 2015 e 2016. No ano passado teve equilíbrio de suas contas e trabalhava para retomar a lucratividade este ano. "Vejo a indústria automotiva no vermelho neste momento".

Zarlenga elenca uma série de incertezas, como a possível revisão da meta de inflação de 2,5% para 4% ao ano; o aumento da taxa Selic na próxima reunião do Copom, “que não será a última revisão da Selic este ano”, e ainda todos os desafios estruturais que em algum momento deste ano terão que ser discutidos: “Qual será a visão para revisão dos gastos públicos? Qual a visão para conter o déficit? Qual a visão sobre a reforma da previdência e os outros pontos tão importantes para o País? Acho que esses temas só poderão ser atacados após as eleições”.

Assim, a expectativa da GM para o mercado interno não é mais a mesma do início do ano: “Acho que não há estabilidade garantida para os próximos meses. A expectativa de crescimento para o segundo semestre é menor do que a que tínhamos alguns meses atrás. E com aumento de preços. Estamos enxergando o consumidor indeciso”.

A GM ainda não revisou suas projeções mas certamente será menor do que as 2,7 milhões de unidades anunciadas no seminário AutoData Perspectivas em outubro do ano passado. “Particularmente acredito em um mercado entre 2,5 e 2,6 milhões de unidades”.

Rota 2030 – Nesta conversa com Carlos Zarlenga no Campo de Provas da GM em Indaiatuba, SP, durante a pré-apresentação na nova Spin – o primeiro dos vinte modelos anunciados pela GM, que terá seu lançamento no final deste mês – ficou evidente uma ponta de decepção com o que vem [ou melhor, o que não vem] acontecendo com o Rota 2030.

Segundo Zarlenga o trabalho realizado durante a fase de negociação dos pilares do Rota 2030 no ano passado e o que se seguiu depois disso “mostrou que não podemos confiar nesse governo”. Ele relatou que ocorreram muitas mudanças no plano original por falta de clareza do governo em seus objetivos.

No entanto, Zarlenga está otimista que o Rota 2030 possa ser anunciado antes das eleições: “A negociação está concluída e neste momento nossa expectativa é que falta um processo interno para poder ser anunciado. Eu quero esperar que eles [governo] não vão voltar atrás no que já foi acordado...mais uma vez”.

AutoData – 12/06/2018